quarta-feira, 20 de março de 2019

o balançar da carroça


Então que viajei por 4 dias para visitar amigos na minha velha cidade, e nem sei dizer o que estava me deixando mais feliz: rever os amigos ou a cidade que eu tanto adoro! Parti na maior empolgação. 
 
O objetivo principal da viagem era rever uma determinada amiga. Infelizmente essa parte aí foi uma experiência meio negativa. Eu simplesmente CANSEI das pessoas que não sabem conversar, que não entendem que conversa é troca. Cansei de ser interrompida, cansei de não ser ouvida, cansei de me sentir 'usada', como se eu só estivesse ali para servir de audiência. Não é a primeira vez que minha amiga faz isso, mas no passado eu sempre relevei: "vai ver que está estressada com o novo emprego, tadinha", "vai ver que está estressada com o divórcio", etc. Agora saturei de uma tal forma que não tem mais volta, não tenho mais como dar para ela o benefício da dúvida. Principalmente depois do desastre na janta de domingo (quando eu mencionei fazer alguma coisa com L, nossa amiga em comum, e a reação da minha amiga foi a pior possível. Bah, que decepção). Em vários momentos pensei "isso também passará" e fui gentil até o último momento. Mas tenho 100% de certeza que nosso tchauzinho final foi um adeus bem definitivo, porque para mim chega. Continuo gostando da pessoa e desejando tudo de maravilhoso, sempre - mas a partir de agora no que depender de mim o contato será esporádico e apenas por escrito. Estou escrevendo isso aqui para não esquecer: tenho que me valorizar, me respeitar e me afastar de pessoas assim. 

Revi também um velho amigo inglês, que já foi mencionado aqui no blog: tivemos um desentendimento político em 2016. Ano passado conseguimos nos acertar (por email/telefone), e essa foi a primeira vez que nos reencontramos desde então. Evitei conversar sobre política. Está tudo indo ladeira abaixo e seria tão fácil dar uma alfinetadinha, mas me contive. Ele também evitou qualquer assunto controverso. Foi extremamente gentil: fez questão de me buscar de carro na estação de trem, arrumou o quarto de visitas para a minha chegada, cozinhou uma janta deliciosa e no dia seguinte fez questão de me levar até a estação de trem. Eu podia ter caminhado até a estação local, mas ele fez questão de me levar na estação mais longe, com melhores conexões, para eu não precisar ficar esperando o trem por tanto tempo. Que coisa boa ser paparicada! Desde que nos mudamos para a Espanha recebemos hóspedes em casa, várias vezes por ano, e buscamos e levamos pessoas no aeroporto, que fica a 1h20 de distância - admito que muitas vezes tenho vontade de lembrar as visitas que na Espanha também existe transporte público, quem diria!? Mas enfim, foi uma experiência muito bacana experimentar o outro lado disso tudo, me senti tão sortuda e agradecida por tanta gentileza e esforço do amigo para que eu me sentisse bem. 

Revisitei Cambridge, a cidade que eu tanto adoro e onde morei por tantos anos. Foi a cidade em que vivi por mais tempo até hoje. Nem mesmo em Porto Alegre, minha cidade natal, eu morei por tanto tempo. E foi uma experiência curiosa: se por um lado eu fiquei extremamente feliz de rever certos lugares preferidos, como o museu Fitzwilliam, o jardim botânico e algumas ruas e parques que eu gosto tanto, por outro lado... acabei olhando a cidade de outra maneira. Nunca imaginei que isso fosse acontecer e eu voltaria a ver a cidade como eu a vi pela primeira vez: sem purpurina. Logo quando me mudei para lá (nos anos 90!) eu reparei inicialmente no lado mais feioso. Só depois, quando minha situação de trabalho mudou e tive mais tempo livre para curtir, é que me encantei com a oferta cultural e passei a relevar a feiura. Mas agora percebi o lado feio outra vez. E por um lado foi interessante ver a cidade tal como é, além da oferta cultural, da beleza arquitetônica, do multiculturalismo que eu tanto gosto. Me senti tão aliviada ao perceber isso, foi como me sentir livre de um feitiço, amém.
 
Ao mesmo tempo fiquei com vontade de visitar Cambridge com certa regularidade. Não deixar tanto tempo passar: voltar pelo menos uma vez por ano, assim como faço com Porto Alegre. Bater ponto nos lugares favoritos e rever determinadas pessoas. Não apenas as mais chegadas; gostei também de rever os conhecidos de vista, como o proprietário do mercadinho asiático. Ele ficou tão feliz quando eu mencionei que tinha me mudado para longe e sentia muita falta da sua loja. Por anos e anos eu fiz as compras no seu mercadinho (adoro cozinhar comida asiática). Conversamos bastante; ele estava mesmo saindo de férias no dia seguinte - 4 dias em Portugal. Pena que nem lembrei de tirar uma foto com essa pessoa que também faz parte da minha história. 

Outro momento muito legal da viagem foi pedalar de Cambridge até Ely. Peguei uma bicicleta emprestada e fui. Uma pedalada que já fiz tantas vezes, em torno de 40km pela imensidão das planícies. E as planícies não decepcionaram, continuam lindas. O grande obstáculo é sempre o vento, que nesse dia estava cruel. Mas tive sorte e não choveu, pelo contrário - estava um dia ensolarado. 

Outro lugar que nunca decepciona é o jardim botânico da universidade: continua encantador. Inclusive tive sorte de ver floridas as campainhas de inverno que eu ajudei a plantar, anos atrás. Mas o que me surpreendeu foi que uma parte boa da viagem foi VOLTAR PARA CASA! Houve momentos nos últimos anos em que duvidei se algum dia iria me sentir assim em relação a esta casa/este lugar. Ufa, até que enfim. Sinto que o coração vai entrando nos eixos. E que agora estou em melhores condições de lidar com as próximas mudanças pela frente.  

O balançar da carroça sempre ajeita as melancias... Vida que segue, me sentindo bem mais leve agora.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário