A vida de cada um
apresenta altos e baixos e dificuldades variadas. Por muitos e muitos e muitos
anos eu vivi vários altos, ou talvez estivesse conseguindo lidar melhor com os
problemas. Mas desde 2015 a sensação que tenho é que a estou me deixando afetar pelas dificuldades. Mas tem mesmo que ser
assim? Desconfio que está me faltando "resiliência" e gostaria muito
de desenvolver isso. Perguntei então
para o google como me tornar uma pessoa mais resiliente e cheguei em várias
sugestões. Entre as quais:
Praticar a autocompaixão: fiquei feliz de encontrar esta sugestão, já que recentemente comecei a incorporar autocompaixão na minha vida. Consiste
em enfrentar nosso sofrimento com bondade, sem julgamento. Os três aspectos da
autocompaixão são os seguintes:
- Observar que estou passando por um momento difícil, inclusive dizendo para mim mesma algo do tipo 'este é um momento complicado'
- Lembrar que não estou sozinha, sofrer faz parte da condição humana: 'todos nós passamos por isso', 'sofrer faz parte da vida'
- Ser gentil comigo, tratar a mim mesma como eu trataria uma amiga, ou como minha irmã me trataria.
Buscar o lado positivo das situações. O texto
que estava lendo apresenta um exemplo: digamos que vc perca o ônibus para o trabalho,
quais seriam os lados positivos da situação? Não lembro agora o que eles
listaram. Mas já
notei que tenho facilidade em lidar com atrasos e percalços,
engarrafamentos, filas intermináveis, greve em aeroportos, hotéis que cancelam
a reserva etc. Coisas pequenas assim não me abalam, ainda
mais se forem causadas por terceiros. Pra falar a verdade uma vez me incomodavam e muito, mas uns 10 anos atrás fiz um grande esforço para mudar: passei todo um ano me desafiando a não demonstrar irritação nem reclamar de nada. Foi muito difícil! Mas isso me fez pensar antes de reagir; eventualmente me fez colocar as coisas sob perspectiva. O lado bom disso tudo é que deixei de ser a pessoa explosiva que era. Só para exemplificar: alguém se distraiu no trânsito e entrou no meu carro, estragando a lataria atrás - ao lidar com o motorista não perdi o bom humor nem as boas maneiras. Nunca imaginei que chegaria nesse estágio de serenidade. Lembrar que mudança sempre envolve esforço.
Mas admito que tenho muitas vezes tenho dificuldade em buscar o lado positivo das situações. Principalmente no caso de problemas
mais graves - me parece que algumas coisas não tem lado positivo, não importa
quanto a gente procure. E desconfio que ficar procurando o lado positivo pode até trazer sofrimento. Penso que o melhor é
simplesmente aceitar a situação e sentir nossos sentimentos. Tristeza faz parte
da vida. Temos que aceitar nossa tristeza, deixar o tempo fazer sua parte,
seguir adiante. Para dar um exemplo bem concreto: minha Mãe está na fase
terminal de Alzheimer e por mais que eu procure, não vejo absolutamente nada de
positivo em terminar a vida assim. Então não é procurando o lado positivo que vou lidar melhor
com isso. Tenho que aceitar que a vida é do jeito que ela é, e não do
jeito que eu gostaria que ela fosse - me parece uma melhor saída. Acho que aqui
entra a meditação, já que na meditação tem muito disso de estar aberta às
coisas como elas são, sem julgamentos.
E
justamente, uma das sugestões é meditar. Tenho que lembrar de meditar todos
os dias, praticar sempre, a vida toda, evitando ruminar sobre o passado ou me
preocupar com o futuro. Reler o livro de meditação que já tenho.
Uma
sugestão mega interessante: mudar
a narrativa. Um sábio grego já disse que "o que nos
comove não são as coisas, mas nossa opinião sobre elas" (Epiteto). As coisas acontecem, simplesmente - o
significado está aberto a interpretação. A interpretação que dou às situações
tem o poder de mudar a maneira como experimento a vida.
Lembrar de uma
situação que me aconteceu num trem em maio de 2016, quando a funcionária foi
grosseira comigo - como eu interpretei aquilo? Dentro de um contexto de
hostilidade na época, mas estava presente naquele momento? Como eu contei aquela história depois? Lembro
de ter interpretado aquele evento da pior maneira possível.
Como fazer para
mudar a narrativa? Uma sugestão é se perguntar: o que mais isso pode
significar?
Lendo essa pergunta,
lembrei do meu velho vizinho SP, para quem tudo era 'uma
experiência', ou então uma 'oportunidade de aprendizado'. Ele tinha
perdido um monte de dinheiro na bolsa de valores, mas quando me contou a
história acrescentou 'valeu como aprendizagem'. Depois tentou defraudar o
governo (?!), teve que restituir tudo e ainda pagar uma multa, mas no fim das
contas 'aprendeu uma lição'. Investiu um monte de grana num negócio que não deu certo, enfim era uma atrás
da outra, mas o cara seguia sempre feliz na mentalidade 'vivendo e
aprendendo'. Na época eu achei curioso, mas hoje eu vejo que essa é a
melhor maneira de encarar a vida.
Lembrar de 1999,
quando perdi meu emprego, na mesma semana que meu marido perdeu o seu... O que
significou aquilo para nós? Num primeiro momento, uma grande chateação - mas
logo percebemos que era uma oportunidade de começar nosso próprio
negócio, que segue até hoje.
Lembrar também de
antes disso: quando deu tudo errado no país X, o que meu marido e eu fizemos?
Foi uma oportunidade de mudança para o país Y. Foi difícil emocionalmente e
financeiramente, no começo foi como caminhar num atoleiro, mas eventualmente tudo
ficou bem. E 20 anos depois, quando nos decepcionamos no país Y, o que fizemos?
Nos mudamos para o país Z. Mas porque esta última mudança foi tão mais difícil
para mim, se todas as condições (emprego, finanças etc) estavam mais
favoráveis? Será que em boa parte não tem a ver com a maneira que narrei tudo
isso para mim mesma?
Já consegui
superar dificuldades no passado (tinha até me esquecido delas), encarando tudo como novas oportunidades. E relendo os exemplos que eu escrevi aqui e pensando nisso tudo me dei conta que no passado já consegui ver o lado positivo de algumas situações.
Ainda
sobre mudar a narrativa, no site greater good da UdB encontrei a sugestão de escrita expressiva:
ao invés de ruminar, sentar e escrever sobre o que incomoda. Sem se preocupar
em produzir uma obra literária, apenas colocar pra fora, por 20 minutos. Ao
escrever somos forçados a confrontar as idéias, o que pode levar a novas
perspectivas. Aliás em mais de um lugar li essa sugestão de manter um
diário.
Enfrentar os medos: "O
primeiro passo é lentamente e repetidamente, se expor ao que o assusta, em
pequenas doses."
Lembrar que já fiz
isso, com sucesso, em relação a minha fobia social. Se
hoje consigo entrar em qualquer ambiente / festa / evento, mesmo sem conhecer
ninguém, e conversar com quem quer que seja, isso se deve ao meu grande desafio
de 2010/2011. Resolvi dizer SIM a todos os convites e oportunidades sociais e me empenhar em conversar com
todo mundo que cruzou o meu caminho. Desde diretores e funcionários das empresas para as quais eu trabalhava na época, passando por todos os desconhecidos que encontrei em tantos eventos de trabalho e grupos disso e daquilo, até mesmo estranhos na rua; não perdi oportunidade para praticar minhas habilidades sociais. Foi extremamente cansativo e em muitos momentos doloroso - de sentir um pânico e vontade de sumir! Mas não sumi e valeu tanto a pena. Continuo a pessoa introvertida que sempre fui, mas agora sempre que quero (ou sou obrigada a) sair do meu casulo consigo interagir com segurança e desenvoltura, yes! Lembrar disso e me animar para superar outros medos e dificuldades.
Destralhar as
expectativas: de todas as coisas que eu estou
precisando destralhar, talvez essa expectativa irreal de que "tudo vai dar
bem, sempre" seja a mais importante. Aceitar que a vida é impermanência.
As situações mudam, as pessoas se vão; nada garante que o que está bem hoje,
continuará bem amanhã. Não há nenhuma lei do universo ditando que EU não vou
ter dificuldades nem passar por sofrimentos.
E por último a sugestão de perdoar. Admito que é uma grande dificuldade, tenho que trabalhar muito aqui. As vezes fico remoendo situações e também palavras duras que me foram ditas anos atrás! Quanta perda de tempo e de energia. Lembro de uma experiência positiva em que consegui perdoar um parente. Ele me feriu com um ataque verbal grave e sem sentido (ameaça de lesões corporais, nesse nível). Ficamos 2 anos sem trocar uma palavra, mas eventualmente consegui superar aquilo (sem ele jamais ter se desculpado) e hoje quando me lembro do ocorrido não sinto mais aquelas emoções de perplexidade, surpresa, raiva e principalmente profunda tristeza (pelo relacionamento tão especial que tínhamos e se perdeu). Hoje quando olho pra trás às vezes sinto pena da pessoa e dos seus problemas, mas interiormente consegui desculpar. Consigo interagir com o parente, sair para tomar um café e jogar conversa fora, numa boa (sem todo o afeto de antes, é como se estivesse conhecendo uma pessoa nova). Meu marido não desculpou a pessoa até hoje e não quer contato nenhum. Não vou mentir: se não fosse um parente tão próximo eu JAMAIS teria me esforçado tanto em perdoar. Teria virado as costas e pensado "gente louca assim eu quero distância". Mas é alguém que eu conheço desde que veio ao mundo (troquei as fraldas da criatura, várias vezes! Convivi por anos e anos), tive 25 anos de relacionamento positivo com a pessoa, enfim um grande investimento emocional aí. E uma esperança também que as coisas melhorassem no futuro.
Mas não superei coisas muito menores (insignificantes em comparação) que amigos ou conhecidos me fizeram ou disseram. Porque tanta dificuldade em passar por cima de certas coisas? Não queria guardar esses ressentimentos todos, tenho que descobrir como superar isso. Algumas dessas pessoas já ficaram no meu passado, não há porque reencontrá-las, não quero uma reaproximação, nada disso - apenas gostaria de evitar reviver sentimentos negativos quando me lembro de determinadas pessoas. Será que ajudaria se eu tentasse lembrar de coisas positivas delas? Ou incluí-las na meditação "bondade amorosa"? Sinceramente não sei o que fazer aqui, se vale a pena dedicar energia mental nisso ou se devo deixar pra lá e esperar que o tempo faça a sua parte.
Pra terminar o texto que ficou excepcionalmente longo, não sei em que momento vou poder dizer: estou mais resiliente agora! Mas vou começar um diário anotando meu progresso com isso tudo e como estou lidando com as dificuldades que vão surgindo.
Mas não superei coisas muito menores (insignificantes em comparação) que amigos ou conhecidos me fizeram ou disseram. Porque tanta dificuldade em passar por cima de certas coisas? Não queria guardar esses ressentimentos todos, tenho que descobrir como superar isso. Algumas dessas pessoas já ficaram no meu passado, não há porque reencontrá-las, não quero uma reaproximação, nada disso - apenas gostaria de evitar reviver sentimentos negativos quando me lembro de determinadas pessoas. Será que ajudaria se eu tentasse lembrar de coisas positivas delas? Ou incluí-las na meditação "bondade amorosa"? Sinceramente não sei o que fazer aqui, se vale a pena dedicar energia mental nisso ou se devo deixar pra lá e esperar que o tempo faça a sua parte.
Pra terminar o texto que ficou excepcionalmente longo, não sei em que momento vou poder dizer: estou mais resiliente agora! Mas vou começar um diário anotando meu progresso com isso tudo e como estou lidando com as dificuldades que vão surgindo.
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