Escrevi o
texto semana passada, no dia 16, mas esqueci de publicar:
Estou em
Porto Alegre visitando meus pais. Eles moram a 8km do centro/mercado público.
Se não fosse o murmúrio de trânsito na distância, seria fácil esquecer que
estou numa grande metrópole. Nos dias que não saio de casa é como se estivesse
morando pra fora: entre árvores frutíferas, horta e galinhas:
O bairro
mudou muito desde que meus pais compraram o terreno. Nos anos 70 a rua não
tinha calçamento algum, era só uma estradinha de chão (sem saída). Nos anos 80
chegou o paralelepípedo. E o asfalto uns 10 anos atrás. As casas originais eram
todas bem simples, mas muitos vizinhos estão vendendo seus enormes terrenos
(20m de frente x 100m de comprimento) e novas moradias estão sendo construídas
(prédios altos ou loteamento de casas iguais). O vizinho do lado direito
colocou o terreno a venda e por algum tempo meu pai teve receio que
construíssem um prédio alto que tirasse o sol da sua horta. Mas por sorte foram
construídas várias casas de 2 andares que não chegam a atrapalhar, já que esse
terreno está num nível mais baixo que a horta do meu pai. O vizinho do lado
esquerdo tem uma mini floresta: todo o terreno está tomado por árvores, algumas
frutíferas. Mas mesmo que venda e um prédio seja construído, a orientação é tal
que não vai interferir no sol no terreno dos meus pais. Mas a perda será
imensa: será o fim do mato e da visita de todos os passarinhos que passam por
ali.
Atualmente
o pai está com 6 galinhas. Teve que se livrar do galo depois que algum vizinho
se queixou do barulho. Parece que agora não pode mais ter galo em área urbana.
Quando eu morei aqui (entre 1983 e 1995) uma coisa que eu adorava era escutar o
canto do galo, tanto o nosso como o de outros galos pelo bairro. Acho curioso
mesmo esse preconceito contra canto de galo, enquanto que várias pessoas tem
cachorro de guarda que latem a qualquer hora do dia ou da noite.
Então
nesses dias aqui tenho acompanhado meu pai na sua rotina. Apesar de estar com
84 anos e caminhando com dificuldade com a ajuda da bengala, ele ainda se
diverte dando de comer às galinhas, buscando ovos, colhendo bergamotas, essas
coisas. Ontem ficamos procurando um camapu que estivesse maduro, parece que
ainda não é bem a época. Enquanto caminhava pela horta/pomar com meu pai me
bateu uma saudade imensa dos tempos que eu tive meu jardim e minha horta. Do
cuidado do plantio e expectativa da colheita, de acompanhar o ciclo das plantas
ao longo do ano. Foi ao mesmo tempo um aperto no coração e um momento de
clareza: fiz bem em tomar a decisão de vender minha casa na Espanha (sem
jardim, apenas pátio com laje). E estou empolgada com o futuro: viver alguns
anos viajando, e enquanto viajamos vou ficar de olho em alguma propriedade que
tenha quintal, boa orientação solar, comércio não muito longe, essas coisas. E
quero eventualmente (em 10 anos no máximo) viver outra vez com quintal e horta.
E finalmente ter as minhas sonhadas galinhas.
Na
verdade está tão gostoso aqui mesmo (na casa dos meus pais) que até pensei que
ficar por aqui seria uma opção também. Se algum dia o vizinho do lado colocasse
seu terreno/mato a venda eu poderia tentar comprar, mas certamente não
conseguiria bater a oferta de uma construtora. Fiquei pensando nessa
possibilidade (remota, afinal meu marido odeia P. Alegre): em ficar aqui mesmo,
comprar o terreno do vizinho e ter meu próprio mato na minha cidade natal. O
que me desanima é a violência. Meu pai e o vizinho nunca foram assaltados, mas
muitas pessoas já foram. Inclusive as cuidadoras da minha mãe, caminhando pela
rua em direção a parada de ônibus que fica lá embaixão, na avenida, a
longínquos 600m.
Na visita
anterior (em setembro do ano passado) os conhecidos comentaram tanto de
violência que eu fiquei com muito medo e só andei de taxi. Mas dessa vez
resolvi deixar as paranóias de lado e voltar a fazer o que sempre fiz em Porto
Alegre: caminhar e usar transporte público. Adoro andar de ônibus e ler os
poemas nas janelas.
Estou
super feliz de estar aqui, feliz pela saúde do meu pai, feliz de ainda ter
amigos na cidade, feliz de ter um trabalho
flexível que me permite viajar bastante, feliz de não ser funcionária pública. Sim, eu senti uma imensa sensação de alívio em relação a isso. Obrigada Adriana dos anos 90, que mandou segurança pro espaço e largou aquele emprego público.
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Escrevi
os parágrafos anteriores no dia 16/05. Agora já estou de volta na Espanha. Mas
antes de partir comi camapus que meu pai colheu para mim, e duas paneladas de
pinhões. Fui na médica, e fiz todos os exames. Tive tempo de renovar meu
passaporte. Encontrei as pessoas queridas. Pedalei 70km pela serra, em ótima companhia. E joguei cartas com meu pai. Tentei deixar ele ganhar na
escova mas mesmo assim eu ganhei. Mas ele sempre ganha na canastra (mesmo
facilitando para mim) então no fim tudo saiu dentro da nossa normalidade :)
2 comentários:
O "feliz de não ser funcionária pública" doeu em mim, hein? Brincadeira. Mas quando passei para um concurso de prefeitura fiquei preocupada. Não gostaria de fazer sempre a mesma coisa. Mas me diga uma coisa... Qual seu trabalho? Percebi que não sei.(ou você já disse e eu esqueci?)
Olá Pri, desculpa se não me expliquei bem. A intenção não é desmerecer o funcionalismo público, só mencionei que sinto alívio de não ser funcionária pública e atualmente estou feliz que tenho tanta flexibilidade para viajar. Vejo muitas vantagens no funcionalismo, por exemplo meus irmãos conseguem tirar várias licenças para acompanhar meus pais idosos em médicos e exames, estão bem contentes com esse aspecto. Além da estabilidade, claro. Enquanto eu era estudante universitária eu estudei um montão para passar em concursos públicos, quando finalmente fui chamada não gostei da experiência como um todo. Talvez se eu tivesse um cargo de nível superior fosse mais interessante, mas no meu caso era um servicinho bem chinfrim e burocrático mesmo. Senti um pouco de medo, mas achei melhor sair e tentar outra coisa. E hoje fico feliz que deu tudo certo. Meu ramo é informática e a tecnologia me permite trabalhar de maneira remota, de qualquer lugar. Custei para ver seu comentário, obrigada pela visita, um beijo.
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