Duas
ou três vezes por ano meu
marido tem que viajar a trabalho. Eu geralmente ficava em casa sozinha, mas da
última vez eu saí de férias: aluguei uma casa rural no meio do nada e levei a
bicicleta. Foi espetacular! Fiz montes de caminhadas e pedaladas pela natureza.
Foi tão bom que prometi a mim mesma repetir sempre. Mas dessa vez a previsão do
tempo no lugar onde eu queria ir estava péssima e além disso tinha bastante
trabalho, valia mais a pena ficar em casa mesmo. Faz 5 dias que ele viajou e
estou aproveitado muito. Vejo essas raras oportunidades de ficar sozinha como
um imenso presente.
Quando me casei
estava certa que nosso casamento terminaria em divórcio, em poucos anos. Mas
continuamos juntos, apesar de todas as diferenças. Ele acorda tarde e dorme até bem tarde; eu gosto
de dormir e acordar cedo. Ele é sociável, mega simpático, adora reunir os amigos; eu sou bicho
do mato e prefiro sossego. Nas finanças ele era mão aberta e eu a maior sovina
do planeta, mas ao menos nisso conseguimos mudar: ele deixou de esbanjar
(tanto) e aprendeu a poupar (um pouco) e eu deixei de ser (tão) sovina e
aprendi a gastar (sem exageros). Então a vida a dois, para a minha surpresa,
vai seguindo feliz - exigindo muita tolerância, compreensão e concessões.
Admito que de vez em quando é bom ter férias disso também.
Então estou fazendo tudo do meu jeito, indo pra
cama no horário que me dá na
telha e fazendo as refeições do jeito que mais gosto. Ontem fui pra cama as
20h30. Todos os dias eu acordo cedo, geralmente entre 4h e 5h, então estou
recuperando muito sono atrasado. E está sendo tão bom acordar as 5h e agir
normalmente, acender a luz e fazer barulho de maneira normal, sem me preocupar
em acordar meu marido. E estou aproveitando que ele não está para comer todos
os dias a mesma coisa: arroz, feijão + alguma coisa verde. Já preparei
brocolis, alcachofra, pimentão com cebola, salada mega caprichada, etc. Quando
meu marido está em casa, cada almoço é um leque de possibilidades: vamos
almoçar em casa ou comer fora? Em qual restaurante? Ele adora almoçar fora, se dependesse dele
almoçaríamos fora todos os dias. Já eu sou tão rotineira que podia viver feliz
comendo exatamente a mesma coisa todos os dias até o fim da minha vida. Etc
etc.
E tem um outro
aspecto de estar só que eu adoro: não ter que me preocupar com mais ninguém.
Sou uma pessoa extremamente empática e sensível as necessidades dos demais, de
uma maneira exagerada - queria ser menos assim. Mas não sei como mudar. Estou
sempre facilitando a felicidade alheia, sempre buscando a harmonia. Estar
sozinha é ter uma folga disso tudo, me ver livre dos humores e das necessidades
alheias que tanto me afetam. E aqui tenho que reconhecer que ufa! acertei em
não ter filhos! Por alguns anos fiquei na dúvida se tinha tomado a decisão
correta, mas a medida que o tempo foi passando eu comecei a sentir um alívio em
relação a isso. E hoje sinto um imenso alívio. Que bom que não embarquei na
viagem sem volta, hoje vejo que obviamente não era pra mim. Curioso que esse
excesso de empatia e sensibilidade não tem a ver apenas com a convivência com o
marido, parentes e amigos, afeta meu comportamento e a convivência com
estranhos. Se estou no supermercado, antes de parar meu carrinho eu sempre escolho
um lugar onde incomode menos. Noto que muita gente deixa o carrinho em qualquer
lugar, até mesmo no meio do corredor barrando a passagem dos demais. Já eu
estou sempre evitando incomodar, não quero ser grosseira, não sou de fazer
barulho, não sou de estacionar em fila dupla, não sou de deixar a porta do
carro aberta por cima da calçada, atrapalhando a passagem dos eventuais
pedestres (mesmo se a primeira vista a calçada está vazia), enfim podia dar
vários exemplos de como estou sempre buscando a ordem e a convivência
harmônica. É uma coisa instintiva e inescapável, essa busca da harmonia. Então é bom tirar férias disso também, na medida do possível.
Dito tudo isso,
admito que também gosto muito do "convívio das gentes" - em doses
homeopáticas. Adoro mesmo conviver com os amigos, gosto de visitar os parentes,
gosto inclusive de jogar conversa fora com estranhos. Faço parte de uma comunidade de hospitalidade online e de vez em quando recebo pessoas randômicas em casa - desde 2005 estou abrindo as portas da minha casa para estranhos (="amigos que ainda não conhecemos"). E no geral os randômicos da internet são uns amores. Bora curtir o restinho do meu sossego, antes de buscar o marido no aeroporto.
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