sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

#49 impermanência (e sabedoria dos avós)


Eu caminho pelo menos 1h por dia, quase todos os dias. Enquanto caminho, gosto de fazer duas coisas: meditar ou escutar algum programa de música clássica. O meu preferido se chama "música antigua", que dura uma hora e é apresentado por um sujeito com voz cansada, ele me passa a ideia de ser um senhor de idade que está lentamente perdendo o fôlego, o ânimo e as forças. Mas realmente gosto muito do programa e já esgotei todos os episódios de 2018 e 2017 - ao invés de baixar algum de 2016, resolvi "começar pelo começo". Hoje escutei um programa que foi ao ar 10 anos atrás, em dezembro de 2008, era sobre a música de monastérios medievais. O que mais me marcou no programa nem foi o conteúdo e sim o ânimo na voz do apresentador. Que diferença 10 anos fazem! Não sei que idade ele tem hoje, mas deu pra perceber bastante diferença na sua voz e no seu entusiasmo.

Estou numa fase em que pensar sobre envelhecimento me faz pensar na sua conclusão inevitável: a morte. Talvez o texto de hoje tenha ficado meio pesado. Então vou resumir o assunto envelhecimento e morte com a sabedoria dos avós do meu marido: "envelhecer é ruim, mas a alternativa é muito pior" e "vamos aproveitar hoje, que amanhã a gente não sabe".

Essas duas frases realmente resumem o assunto de hoje e não há necessidade de ler nenhum outro parágrafo. Estou comentando isso para não entristecer o dia de ninguém que por acaso chegar até o meu texto.  


Aproveitando hoje de manhã ao som de gaivotas, ondas e músicas antigas,
excepcionalmente de chinelo por estar com o calcanhar machucado.

Ressalva feita e fora do caminho, lembro que quando eu era jovem eu sonhava em viver até os 120. Por muito tempo eu colecionei histórias de pessoas idosas; antes da internet colecionava recortes de jornal. Achei que iria aceitar envelhecimento com naturalidade, já que vivendo até os 120 eu passaria a maior parte da minha vida como uma pessoa idosa mesmo. Lembro de ter pensado isso quando era adolescente. Agora estou com 47 anos e as expectativas já são outras, haha.

Em  2016 andei super chateada com as minhas rugas e principalmente celulite que está sempre aumentando. Faço montes de atividades físicas, tenho uma alimentação razoavelmente saudável e ninguém tem mais celulite que eu - tenho celulite até na frente nas pernas! Em 2016 me mudei para bem pertinho do mar e no verão a socialização acontece na praia. Sendo que adoro nadar e chegando aqui me encantei com snorkel, enfim não tem como evitar mostrar a celulite. As rugas também estão bem óbvias e os cabelos brancos mais ainda, já que estou num lugar onde todo mundo pinta os cabelos (homens também) e eu sigo sem esconder os cabelos brancos. Só não sou a única pessoa com cabelos brancos porque meu marido também não esconde. Na verdade não estou nem aí para os cabelos brancos, o que mais noto é o aspecto das minhas mãos: deram uma enrugada muito repentina, realmente não esperava ficar com as mãos tão enrugadas tão cedo.

A vó do meu marido (já falecida) sempre dizia: "envelhecer é ruim, mas a alternativa é muito pior". Nunca tinha pensado muito no assunto, era só mais uma coisa engraçada que ela dizia. Mas ano passado a morte de uma amiga de 32 anos me fez relembrar o ditado da avó. Já fui em muitos enterros ao longo da vida, o primeiro quando eu tinha 6 anos; depois na adolescência foram vários, inclusive de uma colega adolescente; e nos últimos anos tive muitos também... mas para mim nenhum foi tão triste como o enterro da minha amiga de 32 anos. Na última vez que nos encontramos ela estava no hospital, se perguntando se sua filha (bem pequena, ainda usava fraldas) se lembraria dela, afinal já sabia que tinha poucos dias de vida pela frente. A morte da minha amiga me fez colocar o envelhecimento em perspectiva. Passei a sentir gratidão por simplesmente estar aqui. Estar aqui, com esse corpo (desse jeito mesmo que ele é, e não como eu queria que ele fosse), é infinitamente melhor que estar numa cama de hospital esperando o fim, como aconteceu com ela. Desde então sempre que noto algo no meu corpo que me chateia, uma ruga que está se pronunciando ou o horror da celulite, eu penso na amiga que não está mais aqui para experimentar tudo isso. E olhando para os problemas do meus pais, sei que um dia celulite será tão inconsequente que será a última das minhas preocupações. Desde que minha amiga morreu passei a ver envelhecimento como um presente, já que nada é garantido. Quero dizer, nem mesmo a velhice é garantida, podemos morrer a qualquer momento.

Esse ano um dos meus objetivos é fazer um destralhe, principalmente mental, e uma das expectativas que estou descartando é a de viver uma vida saudável e morrer bem velhinha de causas naturais. Sim, seria ótimo, mas talvez pouco provável. Olhando para meu histórico materno: não sei que idade minha bisavó tinha quando faleceu, mas sofreu de alguma forma de demência antes de morrer (não nos conhecemos, minha mãe que me contou). Minha vó morreu de problemas cardíacos aos 60 anos. Minha mãe está sofrendo com alzheimer desde os 70...que provavelmente começou bem antes. Sendo que seu irmão também já foi diagnosticado. Talvez me escape dos problemas cardíacos, mas tenho como prevenir câncer ou alzheimer? Durante 2017 eu passei por uma fase bem paranóica lendo sobre como evitar alzheimer. Meu irmão estava na mesma vibe e acabou mudando radicalmente sua dieta, parou de fumar e começou a fazer exercícios físicos. Eu nunca fumei e sempre fiz exercícios, mas por sugestão do meu irmão cortei açúcar e comidas processadas e passei a comer mais vegetais, peixes e nozes. Na verdade descobri que adoro nozes, então foi a melhor coisa disso tudo: a descoberta das nozes. Provavelmente vou continuar comendo pescado e nozes, mas ultimamente tenho questionado todas as paranóias alimentares e essa ilusão de conseguir prevenir doenças com pequenas mudanças alimentares.  Não que eu vá abandonar a alimentação saudável, estou feliz de ter incorporado isso na minha vida - mas já consegui abandonar os radicalismos.

No começo do ano li um artigo que me fez pensar muito em expectativa e qualidade de vida. Foi escrito por um médico americano que diz querer viver até os 75 anos somente. Aliás o título do artigo é "why I want to die at 75", autor Emanuel Ezequiel. Diz o médico que não pretende fazer exames preventivos de câncer depois de uma certa idade. E que depois dos 75 pretende recusar tratamentos invasivos (ponte de safena, quimioterapia) e simplesmente deixar a vida seguir seu curso. Ele não está propondo isso para ninguém, apenas comentando o que ele pretende fazer na velhice dele (e aqui me pergunto: e quem garante que não mudará de idéia?). Provavelmente uns anos atrás eu teria ficado horrorizada com idéias assim, mas hoje, vendo a situação terminal que minha mãe se encontra, achei interessante o enfoque. Não sei se pretendo fazer igual ao médico, mas achei interessante o jeito que ele aborda a questão: aceitar que tudo um dia acaba e simplesmente deixar fluir ao invés de se agarrar desesperadamente na vida e prologar de forma sofrida o inevitável. Ler esse artigo foi o que mais me ajudou para me libertar das minhas paranóias com alzheimer (estava até perdendo o sono pensando nisso!) e fazer novos planos para o futuro. Afinal, se não for alzheimer, será outra coisa. "Um dia, pronto, me acabo; que seja o que tem que ser", como dizia o meu poeta preferido na adolescência, Mário Quintana. 

Para ser feliz e aproveitar a minha vida (como ela se apresenta), o melhor que posso fazer é aceitar que a vida é "impermanência". As situações mudam, a gente muda, as pessoas se vão, a própria vida acaba. Não tenho como escapar disso, mas posso evitar as paranóias. E principalmente lembrar sempre da sabedoria do vô do meu marido (já falecido também): "Vamos aproveitar hoje, que amanhã a gente não sabe".

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