sexta-feira, 24 de maio de 2019

feliz da vida


Escrevi o texto semana passada, no dia 16, mas esqueci de publicar: 

Estou em Porto Alegre visitando meus pais. Eles moram a 8km do centro/mercado público. Se não fosse o murmúrio de trânsito na distância, seria fácil esquecer que estou numa grande metrópole. Nos dias que não saio de casa é como se estivesse morando pra fora: entre árvores frutíferas, horta e galinhas:

 
O bairro mudou muito desde que meus pais compraram o terreno. Nos anos 70 a rua não tinha calçamento algum, era só uma estradinha de chão (sem saída). Nos anos 80 chegou o paralelepípedo. E o asfalto uns 10 anos atrás. As casas originais eram todas bem simples, mas muitos vizinhos estão vendendo seus enormes terrenos (20m de frente x 100m de comprimento) e novas moradias estão sendo construídas (prédios altos ou loteamento de casas iguais). O vizinho do lado direito colocou o terreno a venda e por algum tempo meu pai teve receio que construíssem um prédio alto que tirasse o sol da sua horta. Mas por sorte foram construídas várias casas de 2 andares que não chegam a atrapalhar, já que esse terreno está num nível mais baixo que a horta do meu pai. O vizinho do lado esquerdo tem uma mini floresta: todo o terreno está tomado por árvores, algumas frutíferas. Mas mesmo que venda e um prédio seja construído, a orientação é tal que não vai interferir no sol no terreno dos meus pais. Mas a perda será imensa: será o fim do mato e da visita de todos os passarinhos que passam por ali. 

Atualmente o pai está com 6 galinhas. Teve que se livrar do galo depois que algum vizinho se queixou do barulho. Parece que agora não pode mais ter galo em área urbana. Quando eu morei aqui (entre 1983 e 1995) uma coisa que eu adorava era escutar o canto do galo, tanto o nosso como o de outros galos pelo bairro. Acho curioso mesmo esse preconceito contra canto de galo, enquanto que várias pessoas tem cachorro de guarda que latem a qualquer hora do dia ou da noite.

 

Então nesses dias aqui tenho acompanhado meu pai na sua rotina. Apesar de estar com 84 anos e caminhando com dificuldade com a ajuda da bengala, ele ainda se diverte dando de comer às galinhas, buscando ovos, colhendo bergamotas, essas coisas. Ontem ficamos procurando um camapu que estivesse maduro, parece que ainda não é bem a época. Enquanto caminhava pela horta/pomar com meu pai me bateu uma saudade imensa dos tempos que eu tive meu jardim e minha horta. Do cuidado do plantio e expectativa da colheita, de acompanhar o ciclo das plantas ao longo do ano. Foi ao mesmo tempo um aperto no coração e um momento de clareza: fiz bem em tomar a decisão de vender minha casa na Espanha (sem jardim, apenas pátio com laje). E estou empolgada com o futuro: viver alguns anos viajando, e enquanto viajamos vou ficar de olho em alguma propriedade que tenha quintal, boa orientação solar, comércio não muito longe, essas coisas. E quero eventualmente (em 10 anos no máximo) viver outra vez com quintal e horta. E finalmente ter as minhas sonhadas galinhas. 

Na verdade está tão gostoso aqui mesmo (na casa dos meus pais) que até pensei que ficar por aqui seria uma opção também. Se algum dia o vizinho do lado colocasse seu terreno/mato a venda eu poderia tentar comprar, mas certamente não conseguiria bater a oferta de uma construtora. Fiquei pensando nessa possibilidade (remota, afinal meu marido odeia P. Alegre): em ficar aqui mesmo, comprar o terreno do vizinho e ter meu próprio mato na minha cidade natal. O que me desanima é a violência. Meu pai e o vizinho nunca foram assaltados, mas muitas pessoas já foram. Inclusive as cuidadoras da minha mãe, caminhando pela rua em direção a parada de ônibus que fica lá embaixão, na avenida, a longínquos 600m. 

Na visita anterior (em setembro do ano passado) os conhecidos comentaram tanto de violência que eu fiquei com muito medo e só andei de taxi. Mas dessa vez resolvi deixar as paranóias de lado e voltar a fazer o que sempre fiz em Porto Alegre: caminhar e usar transporte público. Adoro andar de ônibus e ler os poemas nas janelas.  
 
Estou super feliz de estar aqui, feliz pela saúde do meu pai, feliz de ainda ter amigos na cidade, feliz de ter um trabalho flexível que me permite viajar bastante, feliz de não ser funcionária pública. Sim, eu senti uma imensa sensação de alívio em relação a isso. Obrigada Adriana dos anos 90, que mandou segurança pro espaço e largou aquele emprego público.

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Escrevi os parágrafos anteriores no dia 16/05. Agora já estou de volta na Espanha. Mas antes de partir comi camapus que meu pai colheu para mim, e duas paneladas de pinhões. Fui na médica, e fiz todos os exames. Tive tempo de renovar meu passaporte. Encontrei as pessoas queridas. Pedalei 70km pela serra, em ótima companhia. E joguei cartas com meu pai. Tentei deixar ele ganhar na escova mas mesmo assim eu ganhei. Mas ele sempre ganha na canastra (mesmo facilitando para mim) então no fim tudo saiu dentro da nossa normalidade :)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

guardar só o que é bom de guardar :)


Lembro que muitos anos atrás a professora de inglês fez a seguinte pergunta: se a casa estivesse pegando fogo e cada pessoa da família só pudesse pedir aos bombeiros salvar um único pertence, o que cada um salvaria? Eu estava com 17 anos e não tinha nenhum bem material digno de ser salvo do fogo. Aliás de bem material eu só tinha minhas roupas, meus livros/cadernos e a bicicleta. Na verdade naquela época eu já era aficionada em andar de bicicleta e tinha duas: uma caloi 10 para pedalar nos findis e uma caloi Ceci para ir no colégio durante a semana. Mas ainda assim não achava a bicicleta tão importante a ponto de arriscar a vida de alguém para que fosse salva. Afinal é um bem facilmente substituível. Mas para responder alguma coisa, escolhi salvar uma das bicicletas. Lembro que todos os demais colegas escolheram salvar as fotografias. Achei ótima ideia mas eu não tinha fotografias, elas eram todas dos meus pais; então seria para eles decidir se queriam salvar as fotos ou não.

Tenho pensado bastante nas minhas coisas e no meu apego às coisas. Se o fogo fosse hoje em dia, o que eu escolheria salvar? Ou se tudo fosse destruído antes da chegada dos bombeiros, do que eu realmente sentiria falta? Desconfio que sentiria pena de ter perdido alguns itens (quadros pintados pela minha mãe e as nossas xícaras, cada uma com sua história) mas também sentiria uma imensa sensação de alívio por todas as tralhas perdidas, principalmente projetos inacabados: livros que ainda não li, costuras que não fiz, projetos de madeira que andam parados. Seria uma oportunidade de abandonar de vez alguns hobbies / interesses, sem remorso. E seguir adiante. 

Tenho pensado nisso tudo porque resolvi me mudar para um espaço reduzido. Meu marido e eu compramos um motorhome. Inicialmente o plano era viajar no verão e passar os invernos aqui na nossa casa... Aliás até ontem de manhã eu ainda estava com esse plano. Inclusive ontem comecei a escrever um texto sobre isso aqui para o blog, e acabei refletindo mais sobre o assunto. Melhor vender a casa, investir o dinheiro por uns anos e mais adiante alugar/comprar outro tipo de propriedade. Uma casa com terreno pela volta, já que um dos sonhos que ainda não realizei é ter galinhas. E viver num lugar mais tranquilo. E nesse meio tempo, curtir a vida sobre rodinhas. O plano é embarcar numa viagem de motorhome a partir de maio (depois da minha ida ao BR visitar os parentes). Provavelmente no inverno a gente acabe voltando para esta região que gostamos tanto, mas para isso não precisamos ter uma casa: podemos ficar num camping. Estou sentindo uma imensa sensação de alívio agora que decidi sair definitivamente desta casa. Foi um erro enorme ter comprado isso aqui. E pensar que eu insisti tanto nesse erro. Custei bastante para me perdoar, mas já consegui. Hora de seguir adiante.

Voltando ao assunto "coisas": o que fazer com nossas coisas, já que o espaço no motorhome é super limitado? Resolvi que vou reunir todas as coisas que para mim tem algum valor, colocar numa caixa e guardar num depósito ou na casa de algum amigo. Quero manter alguns objetos significativos.

 
Dá pra ser feliz sem a dupla de imãs de geladeira que nos acompanha desde 1990, sendo que o pinguim até já perdeu uma patinha? Sim, claro que dá. Não preciso das minhas xícaras para ser feliz, nem dos quadros da minha mãe para me lembrar dela. Mas um dia quero ter uma casa outra vez, e ao invés de estar numa situação estéril em que nada me diz coisa nenhuma, onde tudo é descartável ou facilmente substituível, tenho certeza que uma das alegrias será voltar a usar esses objetos que me acompanham desde tanto tempo, cada um com sua história e uma memória feliz por trás. Por exemplo ainda tenho as primeiras facas de serrinha que compramos juntos em 1996 quando chegamos nos Eua. Compramos um conjunto bem barato e genérico, e que surpresa boa ao chegar em casa e abrir a caixa: as facas eram todas da Tramontina! Que alegria: facas de qualidade, da minha terra, compradas tão longe. Lembro até de ter escrito para a minha mãe sobre isso, tão feliz que eu fiquei. Já comprei outras facas de serrinha desde então (Ikea e outras), nenhuma tão boa como as nossas velhas facas tramontina. Aliás duas vão viajar conosco.

domingo, 31 de março de 2019

vencendo a preguiça


Então que resolvi parar de enrolar e voltar a ler. Durante o mês de março li 30 minutos por dia, em média. Sei que não é nada para quem lê bastante; eu mesma já li bem mais que isso no passado, no tempo em que vivia devorando livros. Mas faz anos que não tenho lido quase nada então estou super feliz de retomar o hábito da leitura. Estou com vários livros na lista para ler; tinha esquecido como é bom essa coisa de estar lendo um livro e já se empolgar com os próximos.

quarta-feira, 20 de março de 2019

o balançar da carroça


Então que viajei por 4 dias para visitar amigos na minha velha cidade, e nem sei dizer o que estava me deixando mais feliz: rever os amigos ou a cidade que eu tanto adoro! Parti na maior empolgação. 
 
O objetivo principal da viagem era rever uma determinada amiga. Infelizmente essa parte aí foi uma experiência meio negativa. Eu simplesmente CANSEI das pessoas que não sabem conversar, que não entendem que conversa é troca. Cansei de ser interrompida, cansei de não ser ouvida, cansei de me sentir 'usada', como se eu só estivesse ali para servir de audiência. Não é a primeira vez que minha amiga faz isso, mas no passado eu sempre relevei: "vai ver que está estressada com o novo emprego, tadinha", "vai ver que está estressada com o divórcio", etc. Agora saturei de uma tal forma que não tem mais volta, não tenho mais como dar para ela o benefício da dúvida. Principalmente depois do desastre na janta de domingo (quando eu mencionei fazer alguma coisa com L, nossa amiga em comum, e a reação da minha amiga foi a pior possível. Bah, que decepção). Em vários momentos pensei "isso também passará" e fui gentil até o último momento. Mas tenho 100% de certeza que nosso tchauzinho final foi um adeus bem definitivo, porque para mim chega. Continuo gostando da pessoa e desejando tudo de maravilhoso, sempre - mas a partir de agora no que depender de mim o contato será esporádico e apenas por escrito. Estou escrevendo isso aqui para não esquecer: tenho que me valorizar, me respeitar e me afastar de pessoas assim. 

Revi também um velho amigo inglês, que já foi mencionado aqui no blog: tivemos um desentendimento político em 2016. Ano passado conseguimos nos acertar (por email/telefone), e essa foi a primeira vez que nos reencontramos desde então. Evitei conversar sobre política. Está tudo indo ladeira abaixo e seria tão fácil dar uma alfinetadinha, mas me contive. Ele também evitou qualquer assunto controverso. Foi extremamente gentil: fez questão de me buscar de carro na estação de trem, arrumou o quarto de visitas para a minha chegada, cozinhou uma janta deliciosa e no dia seguinte fez questão de me levar até a estação de trem. Eu podia ter caminhado até a estação local, mas ele fez questão de me levar na estação mais longe, com melhores conexões, para eu não precisar ficar esperando o trem por tanto tempo. Que coisa boa ser paparicada! Desde que nos mudamos para a Espanha recebemos hóspedes em casa, várias vezes por ano, e buscamos e levamos pessoas no aeroporto, que fica a 1h20 de distância - admito que muitas vezes tenho vontade de lembrar as visitas que na Espanha também existe transporte público, quem diria!? Mas enfim, foi uma experiência muito bacana experimentar o outro lado disso tudo, me senti tão sortuda e agradecida por tanta gentileza e esforço do amigo para que eu me sentisse bem. 

Revisitei Cambridge, a cidade que eu tanto adoro e onde morei por tantos anos. Foi a cidade em que vivi por mais tempo até hoje. Nem mesmo em Porto Alegre, minha cidade natal, eu morei por tanto tempo. E foi uma experiência curiosa: se por um lado eu fiquei extremamente feliz de rever certos lugares preferidos, como o museu Fitzwilliam, o jardim botânico e algumas ruas e parques que eu gosto tanto, por outro lado... acabei olhando a cidade de outra maneira. Nunca imaginei que isso fosse acontecer e eu voltaria a ver a cidade como eu a vi pela primeira vez: sem purpurina. Logo quando me mudei para lá (nos anos 90!) eu reparei inicialmente no lado mais feioso. Só depois, quando minha situação de trabalho mudou e tive mais tempo livre para curtir, é que me encantei com a oferta cultural e passei a relevar a feiura. Mas agora percebi o lado feio outra vez. E por um lado foi interessante ver a cidade tal como é, além da oferta cultural, da beleza arquitetônica, do multiculturalismo que eu tanto gosto. Me senti tão aliviada ao perceber isso, foi como me sentir livre de um feitiço, amém.
 
Ao mesmo tempo fiquei com vontade de visitar Cambridge com certa regularidade. Não deixar tanto tempo passar: voltar pelo menos uma vez por ano, assim como faço com Porto Alegre. Bater ponto nos lugares favoritos e rever determinadas pessoas. Não apenas as mais chegadas; gostei também de rever os conhecidos de vista, como o proprietário do mercadinho asiático. Ele ficou tão feliz quando eu mencionei que tinha me mudado para longe e sentia muita falta da sua loja. Por anos e anos eu fiz as compras no seu mercadinho (adoro cozinhar comida asiática). Conversamos bastante; ele estava mesmo saindo de férias no dia seguinte - 4 dias em Portugal. Pena que nem lembrei de tirar uma foto com essa pessoa que também faz parte da minha história. 

Outro momento muito legal da viagem foi pedalar de Cambridge até Ely. Peguei uma bicicleta emprestada e fui. Uma pedalada que já fiz tantas vezes, em torno de 40km pela imensidão das planícies. E as planícies não decepcionaram, continuam lindas. O grande obstáculo é sempre o vento, que nesse dia estava cruel. Mas tive sorte e não choveu, pelo contrário - estava um dia ensolarado. 

Outro lugar que nunca decepciona é o jardim botânico da universidade: continua encantador. Inclusive tive sorte de ver floridas as campainhas de inverno que eu ajudei a plantar, anos atrás. Mas o que me surpreendeu foi que uma parte boa da viagem foi VOLTAR PARA CASA! Houve momentos nos últimos anos em que duvidei se algum dia iria me sentir assim em relação a esta casa/este lugar. Ufa, até que enfim. Sinto que o coração vai entrando nos eixos. E que agora estou em melhores condições de lidar com as próximas mudanças pela frente.  

O balançar da carroça sempre ajeita as melancias... Vida que segue, me sentindo bem mais leve agora.
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

repensando a minha atenção


Um dia desses aconteceu uma coisa que me deixou um pouco surpresa e muito feliz comigo mesma. Meu marido estava vendo um vídeo no youtube e uma música clássica começou a tocar como fundo musical do vídeo. Ele se vira para mim e pergunta: sabe que música é essa? Prestando atenção logo me dei conta que era uma das estações de Vivaldi... suspeitei que fosse o Outono, mas qual movimento? Entrei rapidamente no Spotify e procurei o terceiro movimento do Outono, e não é que estava certa? 

Fiquei feliz mesmo de lembrar do Outono de Vivaldi. Já é a segunda vez que me acontece isso esse ano, num outro dia ele me perguntou se eu conhecia uma outra música. Aquela era de Mozart, o primeiro movimento da "Pequena Serenata Noturna". Na verdade nem precisei conferir a serenata do Mozart no Spotify; já escutei tantas vezes que não tenho a menor dúvida.

Fiquei supresa e feliz porque eu me considero uma pessoa distraída que não presta atenção em muita coisa e não lembra dos detalhes de quase nada. Por exemplo de vez em quando ainda tenho que olhar no dicionário o significado de anaeróbico, a priori, empírico, pragmático e outras palavras assim, parece que tenho dificuldade de fixar certos conceitos. Mas se eu for pensar bem, a verdade é: sim, eu lembro dos detalhes de muita coisa. Quando revejo uma flor ou um pássaro pouco comum, lembro exatamente onde eu vi ou prestei atenção naquela flor ou pássaro pela primeira vez. Lembro exatamente onde eu estava quando vi todos os diferentes pica-paus que já vi até agora. Sendo que já vi 6 tipos de pica-paus em 5 lugares bem diferentes.  

Também presto atenção em obras de arte. Ano passado estive no Museu Thyssen em Madri. Olhando de longe uma obra me chamou a atenção e desconfiei que fosse de Marc Chagall, apesar de só ter visto uma única obra de Chagall até então (vitrais de uma catedral que visitei em 2002). Mas realmente aqueles vitrais ficaram gravados na minha memória, de tão bonitos que eram. E o azul do quadro era o mesmo azul dos vitrais, a mesma leveza das figuras etc. E conferindo o painel ao lado da obra, a confirmação que era mesmo de Chagall.
 
Então talvez eu devesse atualizar a ideia que eu faço de mim mesma. Admitir que sou uma pessoa atenta para algumas coisas. Estou sempre prestando muita atenção no que EU considero interessante. O resto geralmente dá pra conferir nas notas, nos livros ou no google :)

Faz algumas semanas que escrevi o texto, mas fiquei na dúvida se publicava ou não. Mas realmente eu tenho que lembrar que é perfeitamente OK celebrar minhas pequenas vitórias aqui no blog.

detalhe da obra "A Virgen da Aldeia" de Chagall, no museu em Madri

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

2019 fotos em 2019?


Escrevi o texto ao longo do mês:

02.01 Resolvi finalmente abraçar com ganas um dos meus projetos que faz anos e anos que está na lista de "coisas pra fazer", só que nunca faço:  organizar minhas fotos, tanto as reveladas como as digitais. Desde 2002 estou acumulando fotos digitais, sem maiores organizações e sem deletar as piorzinhas. Quando quero encontrar uma foto é aquele drama, e muitas vezes nem encontro. A única organização é anual, tenho um folder para cada ano, e média de 5600 fotos por ano(!). Essa média é desconsiderando o ano de 2010, porque se eu incluir 2010, a média sobe para 6000. Tirei mais de 11 mil e quinhentas fotos em 2010, o ano em que tudo saiu do controle. Nossa, que vergonha admitir isso. E pra quê tanta foto? Sou fotógrafa profissional? Não. Tenho blog de fotografia? Não. Estou no instagram/facebook/etc? Também não. Lembro que em 2010 eu tive alguns problemas emocionais e talvez fotografia tenha sido uma forma de lidar com isso. De qualquer forma, 5600 fotos por ano já é um número bem exagerado. Em 2018 tentei manter a fotografia sob controle e ao mesmo tempo fiz um projeto muito divertido, uma colagem semanal das fotos. Aliás gostei tanto  de prestar atenção na beleza dos meus dias que estou repetindo o projeto em 2019.

Durante 2019 o plano é tirar menos fotos (ficaria muito feliz se conseguisse terminar o ano com 2019 fotos, ao invés das +5000 costumeiras). E quero também organizar as fotos anteriores, de alguma maneira... Mas por outro lado não sei quanto tempo vou querer dedicar a olhar pra trás. Afinal, pra frente é que se anda!
 
23.01: estou muito feliz que estou conseguindo manter as fotos de 2019 sob controle. Em 22 dias até agora estou com apenas 70 fotos, o que dá 3.18 fotos por dia. Se eu manter esse ritmo, vou terminar 2019 com 1161 fotos. Mas sei que quando estiver por aí viajando no verão vou tirar bem mais fotos por dia, então na verdade talvez devesse estar tirando ainda menos fotos agora para poder tirar mais depois!
 
24.01: Resolvi encarar as fotos de 2018. Na minha cabeça eu tinha a ideia que tinha maneirado um pouco a quantidade de fotos, mas na verdade tenho 5403 fotos na pasta de 2018. Então resolvi começar com o mês de janeiro. 455 fotos, média de 14.6 fotos por dia. Uma hora depois, tinha reduzido para 133 fotos, menos de 5 fotos por dia. Tenho os demais meses para repassar. Ficaria muito feliz se conseguisse reduzir o número total de fotos de 2018 pela metade.
 
31.01: Estou num ciclo do bem e acho que finalmente vou conseguir resolver essa questão das fotos. Entrei no hábito de repensar as fotos do dia, todos os dias! Então não tenho mais deixado as fotos duplicadas acumular e tenho muitas vezes deletado todas as fotos de alguma coisa. E em muitas situações que eu tirava fotos, agora não tenho mais tirado e pronto. Tenho pensado "nossa pra que tirar foto disso, só pra deletar depois?". E ser mais seletiva no dia a dia está me ajudando a deletar as fotos de 2018 sem remorso algum. Estou gostando mesmo de fazer isso, e acho que vai me ajudar no destralhe em geral.
 
E cheguei no fim de janeiro com apenas 90 fotos, então consegui ficar com menos de 3 fotos por dia. Três fotos por dia talvez seja um montão ainda, mas para quem estava com quase 15 fotos/dia em janeiro de 2018, é um progresso enorme. Parabéns para mim!

E um apanhado do meu progresso em relação as fotos de 2018:
Janeiro: comecei com 488 fotos, estou com 133
fevereiro: comecei com 372, reduzi para 153
março: de 288 para 137
abril: de 218 para 152
maio: 788 fotos! Viagem para Madri e vários passeios nas montanhas. Foi difícil, mas consegui reduzir para 414.

O que tanto fotografo: de vez em quando fotografo algum prato de comida que me deixa feliz só de olhar; minha casa quando está tudo lindo e arrumado, para me lembrar depois como pode ser;  meu fotogênico marido e seu lindo sorriso; nossos bichinhos de estimação; qualquer passeio que eu faço, toda e qualquer caminhada e volta de bicicleta. Alguma obra de arte em museus que me marcam muito (mas na verdade prefiro anotar o autor/nome e procurar online depois). Mas principalmente fotografo a natureza: flores, o mar, as nuvens, a alvorada de todo dia e as árvores, sempre as árvores. Adoro fotografar árvores.

Aiaiai, quero só ver quando eu chegar nas fotos de julho e setembro, que foram os meses com passeios mais interessantes e arborizados! O desafio continua...


Alguns ótimos momentos de janeiro até maio, 2018



 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

lobos e hábitos


Gosto de um podcast que se chama The One You Feed, é baseado na parábola dos dois lobos:" vovó explica para sua netinha que dentro de cada um de nós há uma batalha entre dois lobos. O lobo bom, que representa características como honestidade, generosidade, gentileza... e um lobo mau, que representa características como inveja, medo e preguiça. E a netinha pergunta: qual lobo vence a batalha? Vovó responde: aquele que você alimenta". A primeira vez que escutei isso foi em 2016 e foi como um tapa na cara: eu andava mesmo obcecando com um assunto político que tanto me atormentava na época. O podcast sempre começa perguntando para os entrevistados o que essa parábola representa para a vida deles - acho bem interessante mesmo escutar a perspectiva de cada um. 

Outro dia o entrevistado era James Clear, que escreveu um livro sobre hábitos. Achei o interessante o que ele tinha a dizer sobre o papel da identidade nessa questão dos hábitos:

"Uma vez que você adota uma identidade, você não está mais buscando a mudança de comportamento, você está apenas agindo de forma condizente com o tipo de pessoa que você já acredita que é. Um exemplo: imagine que você tem duas pessoas que são fumantes e estão tentando desistir. À primeira você oferece um cigarro e ela diz: não, obrigado, estou tentando parar. E a segunda pessoa que você oferece um cigarro diz "não, obrigado, eu não sou fumante". Mesma ação, ambos estão recusando o cigarro. Mas a primeira pessoa ainda se identifica como alguém que fuma. Ela está tentando fazer algo que não é. A segunda pessoa está se identificando como não fumante. Isso sinaliza uma mudança na identidade. Isso é uma coisa muito poderosa, porque uma vez que você se vê como esse tipo de pessoa, você tem uma razão adicional para reforçar esse comportamento. Pequenos hábitos e pequenas ações são o melhor método que temos para moldar nossa identidade. De certo modo, seus hábitos são como você incorpora uma identidade particular. Toda vez que você faz sua cama de manhã, você personifica a identidade de alguém que é caprichoso e organizado. Cada ação que você toma é um voto para o tipo de pessoa que você quer ser ou acreditar que você é. Ao votar, ao repetir esses pequenos hábitos, você cria evidências de ser esse tipo de pessoa. E a evidência é uma parte crucial: enraíza a identidade, é a prova de ser esse tipo de pessoa. Algumas pessoas dizem coisas como "fingir até você conseguir". Mas "fingir até você conseguir" é um pouco diferente do que estou falando aqui. Seria pedir para você acreditar em algo sem ter provas disso (uma ilusão). Em algum momento, o cérebro não gosta dessa desconexão. Mas se você pode olhar para trás e dizer "eu arrumei a cama em 13 dos últimos 14 dias", você tem provas de ser uma pessoa caprichosa. Seus hábitos e ações dão a você uma prova de quem você é e, gradualmente, com o tempo, eles podem remodelar um pouco sua identidade ou expandi-la ou atualizá-la em alguns aspectos."
 
Então eu posso parar de pensar em mim mesma como alguém que está tentando meditar e me identificar como alguém que medita.