sábado, 31 de agosto de 2019

impermanência, outra vez


Outro dia estava fazendo uma viagem mental, lembrando de todos as plantas que eu já tive nos vários lugares onde morei desde que saí da casa dos meus pais. E não conseguia me lembrar das plantas nos 2 primeiros apartamentos de aluguel, logo que casamos. Até que me lembrei: não tive nenhuma planta, naquela época eu tive um gato. Um gato adulto, sem um pedaço da orelha. O gato tinha um jeitinho tão feioso que quando eu cheguei em casa, voltando do centro de adoção, meu marido ficou admirado: mas porque tu pegou um gato tão horrível? Pois é, quem vê pelagem não vê coração. Ainda lembro daquela experiência maravilhosa na casa de adoção: ele foi o primeiro gato que eu peguei no colo e para a minha surpresa imediatamente ficou todo relaxado e tranquilo nos meus braços. Me apaixonei na mesma hora! Decidi adotá-lo, sem olhar para nenhum outro. Poucas semanas depois ele estava com outro aspecto, muito saudável - talvez faltasse comida no lugar onde estava. Era um gato muito fofinho mesmo, estava sempre me seguindo pelo apartamento, inclusive quando eu ia no banheiro ele entrava junto e ficava ali me acompanhando, kkk. Ou se eu fechava a porta antes do gato entrar ele ficava paradinho, do outro lado da porta, esperando que eu saísse. Adorava pular no meu colo e dormia sempre na cama conosco. Quando eu fui morar na Inglaterra não consegui levar o gato junto, ele ficou com uma amiga. Senti tanto a falta daquele gato! Foi uma experiência difícil mesmo. Foi um baque emocional tão grande que resolvi não adotar nenhum outro gato (afinal não sabia quanto tempo ficaria por lá) e voltei minha atenção para as plantas. Então foi assim que desenvolvi um interesse por plantas: tentando preencher o grande vazio que aquele gatinho encantador tinha deixado na minha vida. Acabei me interessando não só por plantas, mas também por cultivo de horta, flores silvestres, identificação de árvores... faz anos que adoro mesmo tudo isso. 

Isso me fez pensar em outras mudanças: lembrei que em 2006 resolvi passar mais tempo em Poa, para curtir a companhia dos meus pais, irmãos e sobrinhos. Arrumei uma bicicleta para pedalar enquanto estivesse lá. Nos anos 80/90 eu pedalei muito pela cidade, inclusive usava a bici como meio de transporte. Acontece que a situação de trânsito tinha mudado muito nesses anos todos. Por questão de poucos centímetros não perdi minha vida, na segunda vez que aconteceu desisti total de andar de bicicleta por lá. Resolvi abraçar um outro esporte enquanto estivesse no BR. Escolhi remo, esporte que poderia praticar tanto no Guaíba como no rio da minha cidade inglesa. Mas achei melhor aprender primeiro a nadar. E uma coisa incrível aconteceu: me apaixonei total por natação e me dei conta que nadar por si só era suficiente, não precisava remar para ser feliz. Difícil explicar a alegria que natação trouxe para a minha vida, principalmente para os invernos frios e chuvosos do hemisfério norte. E pensar que só aprendi a nadar porque senti que não tinha mais como pedalar em Poa.  

E a mudança mais recente: este ano me mudei para um motorhome porque estava realmente infeliz com a questão de "ruídos" no último endereço. Foi uma decisão difícil: relutei muito. E agora estou tão feliz - está sendo uma experiência fantástica.

Apesar de todas as mudanças que já passei (endereços/trabalhos/países) a verdade é que eu sou uma pessoa muito apegada à rotina e sinto uma imensa relutância em mudar. Já sofri muito com mudança. Diria até que já tive trauma com mudança, talvez por ter vivido uma infância instável de constante mudança. Mas pensando rapidamente lembrei desses 3 exemplos em que uma mudança de circunstâncias trouxe algo muito positivo para a minha vida: novo interesse, novo esporte, novo estilo de vida. Provavelmente eu tenha vários outros exemplos que não lembro agora. Outras mudanças virão pela frente, afinal a vida é impermanência mesmo. Tenho que lembrar que o novo sempre vem, e o novo pode ser divertido. Faz anos que eu sei disso, mas parece que ainda não interiorizei a mensagem. Um dia serei craque em mudanças.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

simbora vencer a preguiça, mental principalmente


Outro dia fiz aniversário, agora estou com 48 anos. Comemorei da maneira que eu mais gosto: volta de bicicleta e picnic na natureza. Sendo que o picnic foi num lugar muito simpático, uma praia de rio:
 
 

Foi difícil mas consegui atingir o objetivo esportivo dos meus 47 anos: dedicar 470 horas às atividades físicas. No fim fechei 476. Dificultei a minha vida me dando vários "dias de férias" em dezembro/janeiro e depois tive que correr atrás. Curioso que apesar de adorar pedalar caminhar e nadar ainda assim muitas vezes sinto preguiça de sair de casa. Faz muitos anos que ter um objetivo esportivo bem definido e anotar tudo na planilha do excel tem me ajudado a vencer a preguiça. Na verdade faço poucas horas de atividades físicas de alta intensidade, a maior parte do tempo estou tranquilamente por aí pedalando ou caminhando na natureza me admirando com a beleza do mundo, algumas vezes na companhia de pessoas queridas. Gostei muito de ter feito isso nos 47 anos, provavelmente vou repetir nos 48 (talvez reduzindo o tempo total).

Finalmente resolvi fazer o que devia ter feito muito tempo atrás: adotar este mesmo esquema para meu outro grande objetivo que é "vencer a preguiça mental". Resolvi dedicar 480 horas pra vencer a preguiça mental enquanto tenho 48 anos. Este ano já consegui (re)incorporar leitura na minha vida mas tem outras coisas que gostaria de fazer mas nunca faço, como estudar italiano e aprender mais sobre assuntos variados... objetivos vagos que tomam tempo. Então agora estou com outra aba na minha planilha em que anoto o tempo dedicado a essas outras atividades também. Dividindo 480 por 365 dá em torno de 1h19 por dia ou então um pouco mais de 9h por semana. Trabalho meio turno, caso contrário não conseguiria dedicar tanto tempo para mim dessa maneira. Sem falar no tempo em que me divirto fuçando na minha planilha :)

terça-feira, 9 de julho de 2019

mudança na trilha sonora


Então que a vida deu uma reviravolta: deixei minha casa para trás (o mais difícil foi deixar as plantinhas para trás) e agora estou morando em campings, num motorhome. Parece que aquela vida convencional de antes faz parte do meu passado remoto, a sensação que eu tenho é que faz um tempão que estou nessa nova vida na estrada... mas na verdade só saí da casa dia 25 de maio. Estou super feliz, ele também - é o que importa.  

O que mais me motivou a sair da casa foi o problema de barulho na vizinhança. Ano passado gastamos uma quantia considerável em isolamento acústico no quarto. Que amenizou o problema mas não chegou a resolver. Então investimos também num sistema de som bem bacana, na tentativa de abafar os barulhos desagradáveis com outros tipos de ruídos. Estava me dando uma agonia viver num lugar de clima tão gostoso e ter que dormir com tudo fechado, ar condicionado ligado e uma gravação de barulho de chuva no modo repetição, para poder ter um pouco de sossego. E nunca escutar os grilos de noite, nem os passarinhos de manhã.
 
Então embarquei nessa vida atrás de sossego, de verde e de canto de passarinho. No passado já tínhamos ficado muito tempo em campings. Sempre com barraca e na meia estação (evitando o agito de julho/agosto). Aliás em 2009 eu fiz um destralhe pensando em algum dia viver num camping, de tanto que gosto do sossego e das simplicidade da vida nos campings. O plano era viver com tudo o que conseguisse levar no carro - não pensava em motorhome naquela época, queria viver numa barraca mesmo. E pensar que só agora, 10 anos depois, estou realizando aquele velho sonho. Só que de outra maneira, com muito mais conforto. E estou maravilhada com a flexibilidade do motorhome. Se não estamos felizes com os vizinhos de camping: com um motorhome é super fácil mudar de parcela ou até mesmo de camping. Estou curiosa para ver como será viver julho/agosto  em campings, quando provavelmente estará tudo lotado e não teremos tanta flexibilidade. 

Quanto a viajar: gosto de viajar mas não sou a louca das viagens. Faz mais de 20 anos que moro na Europa e ainda não visitei todos os países europeus. E o tempo vai passando e eu tenho menos e menos vontade de visitar capitais e cidades grandes. Se eu nunca visitar Budapeste ou Riga ou sei lá qual a capital europeia da moda no momento sei que não vou ficar triste. Como é a viagem ideal para mim: gosto de ficar várias semanas (ou até meses) num lugar só, fazendo minhas pedaladas e caminhadas na natureza, sem estresse e sem correria alguma. Acho super divertido visitar cidades grandes de vez em quando, principalmente para visitar museus de arte (adoro!). Mas só de vez em quando, no mais prefiro a tranquilidade de lugares pequenos. Na verdade o lugar não importa tanto assim desde que tenha sossego, passarinhos e verde, muito verde. Não imaginei que eu iria me sentir feliz de simplesmente estar longe da aridez do sul da Espanha. As paisagens que já foram corriqueiras uma vez estão voltando a fazer parte do cotidiano. Que alegria  rever esse tipo de coisa:


Olá rolinho de feno, que bom te ver por aqui :)
♫ é no verde que eu vou, pedalar até cair no chão ♫ 

dedaleira (digitalis purpurea) embelezando os caminhos
 
 
Um simples rolinho de feno, flores silvestres que eu já conheço pelo nome, um caminho verde no meio do nada, várias árvores decíduas juntas... eu sabia que estava com saudade desse tipo de coisa, mas não fazia idéia de como eu ficaria feliz em reencontrar coisas assim, todos os dias.

Mas o melhor de tudo mesmo mesmo mesmo MESMO está sendo escutar outros barulhos: chuva de verdade no teto do motorhome. Grilos durante a noite. Canto de passarinho de manhã cedo. Estou me sentindo tão feliz e sortuda por estar vivendo tudo isso. Tenho certeza que assim que o frio chegar vamos sentir falta do inverno ensolarado e ameno do sul da Espanha e será ótimo voltar. Mas falta muito ainda, todo um verão VERDE pela frente para ser vivido na sua plenitude, bora curtir.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

feliz da vida


Escrevi o texto semana passada, no dia 16, mas esqueci de publicar: 

Estou em Porto Alegre visitando meus pais. Eles moram a 8km do centro/mercado público. Se não fosse o murmúrio de trânsito na distância, seria fácil esquecer que estou numa grande metrópole. Nos dias que não saio de casa é como se estivesse morando pra fora: entre árvores frutíferas, horta e galinhas:

 
O bairro mudou muito desde que meus pais compraram o terreno. Nos anos 70 a rua não tinha calçamento algum, era só uma estradinha de chão (sem saída). Nos anos 80 chegou o paralelepípedo. E o asfalto uns 10 anos atrás. As casas originais eram todas bem simples, mas muitos vizinhos estão vendendo seus enormes terrenos (20m de frente x 100m de comprimento) e novas moradias estão sendo construídas (prédios altos ou loteamento de casas iguais). O vizinho do lado direito colocou o terreno a venda e por algum tempo meu pai teve receio que construíssem um prédio alto que tirasse o sol da sua horta. Mas por sorte foram construídas várias casas de 2 andares que não chegam a atrapalhar, já que esse terreno está num nível mais baixo que a horta do meu pai. O vizinho do lado esquerdo tem uma mini floresta: todo o terreno está tomado por árvores, algumas frutíferas. Mas mesmo que venda e um prédio seja construído, a orientação é tal que não vai interferir no sol no terreno dos meus pais. Mas a perda será imensa: será o fim do mato e da visita de todos os passarinhos que passam por ali. 

Atualmente o pai está com 6 galinhas. Teve que se livrar do galo depois que algum vizinho se queixou do barulho. Parece que agora não pode mais ter galo em área urbana. Quando eu morei aqui (entre 1983 e 1995) uma coisa que eu adorava era escutar o canto do galo, tanto o nosso como o de outros galos pelo bairro. Acho curioso mesmo esse preconceito contra canto de galo, enquanto que várias pessoas tem cachorro de guarda que latem a qualquer hora do dia ou da noite.

 

Então nesses dias aqui tenho acompanhado meu pai na sua rotina. Apesar de estar com 84 anos e caminhando com dificuldade com a ajuda da bengala, ele ainda se diverte dando de comer às galinhas, buscando ovos, colhendo bergamotas, essas coisas. Ontem ficamos procurando um camapu que estivesse maduro, parece que ainda não é bem a época. Enquanto caminhava pela horta/pomar com meu pai me bateu uma saudade imensa dos tempos que eu tive meu jardim e minha horta. Do cuidado do plantio e expectativa da colheita, de acompanhar o ciclo das plantas ao longo do ano. Foi ao mesmo tempo um aperto no coração e um momento de clareza: fiz bem em tomar a decisão de vender minha casa na Espanha (sem jardim, apenas pátio com laje). E estou empolgada com o futuro: viver alguns anos viajando, e enquanto viajamos vou ficar de olho em alguma propriedade que tenha quintal, boa orientação solar, comércio não muito longe, essas coisas. E quero eventualmente (em 10 anos no máximo) viver outra vez com quintal e horta. E finalmente ter as minhas sonhadas galinhas. 

Na verdade está tão gostoso aqui mesmo (na casa dos meus pais) que até pensei que ficar por aqui seria uma opção também. Se algum dia o vizinho do lado colocasse seu terreno/mato a venda eu poderia tentar comprar, mas certamente não conseguiria bater a oferta de uma construtora. Fiquei pensando nessa possibilidade (remota, afinal meu marido odeia P. Alegre): em ficar aqui mesmo, comprar o terreno do vizinho e ter meu próprio mato na minha cidade natal. O que me desanima é a violência. Meu pai e o vizinho nunca foram assaltados, mas muitas pessoas já foram. Inclusive as cuidadoras da minha mãe, caminhando pela rua em direção a parada de ônibus que fica lá embaixão, na avenida, a longínquos 600m. 

Na visita anterior (em setembro do ano passado) os conhecidos comentaram tanto de violência que eu fiquei com muito medo e só andei de taxi. Mas dessa vez resolvi deixar as paranóias de lado e voltar a fazer o que sempre fiz em Porto Alegre: caminhar e usar transporte público. Adoro andar de ônibus e ler os poemas nas janelas.  
 
Estou super feliz de estar aqui, feliz pela saúde do meu pai, feliz de ainda ter amigos na cidade, feliz de ter um trabalho flexível que me permite viajar bastante, feliz de não ser funcionária pública. Sim, eu senti uma imensa sensação de alívio em relação a isso. Obrigada Adriana dos anos 90, que mandou segurança pro espaço e largou aquele emprego público.

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Escrevi os parágrafos anteriores no dia 16/05. Agora já estou de volta na Espanha. Mas antes de partir comi camapus que meu pai colheu para mim, e duas paneladas de pinhões. Fui na médica, e fiz todos os exames. Tive tempo de renovar meu passaporte. Encontrei as pessoas queridas. Pedalei 70km pela serra, em ótima companhia. E joguei cartas com meu pai. Tentei deixar ele ganhar na escova mas mesmo assim eu ganhei. Mas ele sempre ganha na canastra (mesmo facilitando para mim) então no fim tudo saiu dentro da nossa normalidade :)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

guardar só o que é bom de guardar :)


Lembro que muitos anos atrás a professora de inglês fez a seguinte pergunta: se a casa estivesse pegando fogo e cada pessoa da família só pudesse pedir aos bombeiros salvar um único pertence, o que cada um salvaria? Eu estava com 17 anos e não tinha nenhum bem material digno de ser salvo do fogo. Aliás de bem material eu só tinha minhas roupas, meus livros/cadernos e a bicicleta. Na verdade naquela época eu já era aficionada em andar de bicicleta e tinha duas: uma caloi 10 para pedalar nos findis e uma caloi Ceci para ir no colégio durante a semana. Mas ainda assim não achava a bicicleta tão importante a ponto de arriscar a vida de alguém para que fosse salva. Afinal é um bem facilmente substituível. Mas para responder alguma coisa, escolhi salvar uma das bicicletas. Lembro que todos os demais colegas escolheram salvar as fotografias. Achei ótima ideia mas eu não tinha fotografias, elas eram todas dos meus pais; então seria para eles decidir se queriam salvar as fotos ou não.

Tenho pensado bastante nas minhas coisas e no meu apego às coisas. Se o fogo fosse hoje em dia, o que eu escolheria salvar? Ou se tudo fosse destruído antes da chegada dos bombeiros, do que eu realmente sentiria falta? Desconfio que sentiria pena de ter perdido alguns itens (quadros pintados pela minha mãe e as nossas xícaras, cada uma com sua história) mas também sentiria uma imensa sensação de alívio por todas as tralhas perdidas, principalmente projetos inacabados: livros que ainda não li, costuras que não fiz, projetos de madeira que andam parados. Seria uma oportunidade de abandonar de vez alguns hobbies / interesses, sem remorso. E seguir adiante. 

Tenho pensado nisso tudo porque resolvi me mudar para um espaço reduzido. Meu marido e eu compramos um motorhome. Inicialmente o plano era viajar no verão e passar os invernos aqui na nossa casa... Aliás até ontem de manhã eu ainda estava com esse plano. Inclusive ontem comecei a escrever um texto sobre isso aqui para o blog, e acabei refletindo mais sobre o assunto. Melhor vender a casa, investir o dinheiro por uns anos e mais adiante alugar/comprar outro tipo de propriedade. Uma casa com terreno pela volta, já que um dos sonhos que ainda não realizei é ter galinhas. E viver num lugar mais tranquilo. E nesse meio tempo, curtir a vida sobre rodinhas. O plano é embarcar numa viagem de motorhome a partir de maio (depois da minha ida ao BR visitar os parentes). Provavelmente no inverno a gente acabe voltando para esta região que gostamos tanto, mas para isso não precisamos ter uma casa: podemos ficar num camping. Estou sentindo uma imensa sensação de alívio agora que decidi sair definitivamente desta casa. Foi um erro enorme ter comprado isso aqui. E pensar que eu insisti tanto nesse erro. Custei bastante para me perdoar, mas já consegui. Hora de seguir adiante.

Voltando ao assunto "coisas": o que fazer com nossas coisas, já que o espaço no motorhome é super limitado? Resolvi que vou reunir todas as coisas que para mim tem algum valor, colocar numa caixa e guardar num depósito ou na casa de algum amigo. Quero manter alguns objetos significativos.

 
Dá pra ser feliz sem a dupla de imãs de geladeira que nos acompanha desde 1990, sendo que o pinguim até já perdeu uma patinha? Sim, claro que dá. Não preciso das minhas xícaras para ser feliz, nem dos quadros da minha mãe para me lembrar dela. Mas um dia quero ter uma casa outra vez, e ao invés de estar numa situação estéril em que nada me diz coisa nenhuma, onde tudo é descartável ou facilmente substituível, tenho certeza que uma das alegrias será voltar a usar esses objetos que me acompanham desde tanto tempo, cada um com sua história e uma memória feliz por trás. Por exemplo ainda tenho as primeiras facas de serrinha que compramos juntos em 1996 quando chegamos nos Eua. Compramos um conjunto bem barato e genérico, e que surpresa boa ao chegar em casa e abrir a caixa: as facas eram todas da Tramontina! Que alegria: facas de qualidade, da minha terra, compradas tão longe. Lembro até de ter escrito para a minha mãe sobre isso, tão feliz que eu fiquei. Já comprei outras facas de serrinha desde então (Ikea e outras), nenhuma tão boa como as nossas velhas facas tramontina. Aliás duas vão viajar conosco.

domingo, 31 de março de 2019

vencendo a preguiça


Então que resolvi parar de enrolar e voltar a ler. Durante o mês de março li 30 minutos por dia, em média. Sei que não é nada para quem lê bastante; eu mesma já li bem mais que isso no passado, no tempo em que vivia devorando livros. Mas faz anos que não tenho lido quase nada então estou super feliz de retomar o hábito da leitura. Estou com vários livros na lista para ler; tinha esquecido como é bom essa coisa de estar lendo um livro e já se empolgar com os próximos.

quarta-feira, 20 de março de 2019

o balançar da carroça


Então que viajei por 4 dias para visitar amigos na minha velha cidade, e nem sei dizer o que estava me deixando mais feliz: rever os amigos ou a cidade que eu tanto adoro! Parti na maior empolgação. 
 
O objetivo principal da viagem era rever uma determinada amiga. Infelizmente essa parte aí foi uma experiência meio negativa. Eu simplesmente CANSEI das pessoas que não sabem conversar, que não entendem que conversa é troca. Cansei de ser interrompida, cansei de não ser ouvida, cansei de me sentir 'usada', como se eu só estivesse ali para servir de audiência. Não é a primeira vez que minha amiga faz isso, mas no passado eu sempre relevei: "vai ver que está estressada com o novo emprego, tadinha", "vai ver que está estressada com o divórcio", etc. Agora saturei de uma tal forma que não tem mais volta, não tenho mais como dar para ela o benefício da dúvida. Principalmente depois do desastre na janta de domingo (quando eu mencionei fazer alguma coisa com L, nossa amiga em comum, e a reação da minha amiga foi a pior possível. Bah, que decepção). Em vários momentos pensei "isso também passará" e fui gentil até o último momento. Mas tenho 100% de certeza que nosso tchauzinho final foi um adeus bem definitivo, porque para mim chega. Continuo gostando da pessoa e desejando tudo de maravilhoso, sempre - mas a partir de agora no que depender de mim o contato será esporádico e apenas por escrito. Estou escrevendo isso aqui para não esquecer: tenho que me valorizar, me respeitar e me afastar de pessoas assim. 

Revi também um velho amigo inglês, que já foi mencionado aqui no blog: tivemos um desentendimento político em 2016. Ano passado conseguimos nos acertar (por email/telefone), e essa foi a primeira vez que nos reencontramos desde então. Evitei conversar sobre política. Está tudo indo ladeira abaixo e seria tão fácil dar uma alfinetadinha, mas me contive. Ele também evitou qualquer assunto controverso. Foi extremamente gentil: fez questão de me buscar de carro na estação de trem, arrumou o quarto de visitas para a minha chegada, cozinhou uma janta deliciosa e no dia seguinte fez questão de me levar até a estação de trem. Eu podia ter caminhado até a estação local, mas ele fez questão de me levar na estação mais longe, com melhores conexões, para eu não precisar ficar esperando o trem por tanto tempo. Que coisa boa ser paparicada! Desde que nos mudamos para a Espanha recebemos hóspedes em casa, várias vezes por ano, e buscamos e levamos pessoas no aeroporto, que fica a 1h20 de distância - admito que muitas vezes tenho vontade de lembrar as visitas que na Espanha também existe transporte público, quem diria!? Mas enfim, foi uma experiência muito bacana experimentar o outro lado disso tudo, me senti tão sortuda e agradecida por tanta gentileza e esforço do amigo para que eu me sentisse bem. 

Revisitei Cambridge, a cidade que eu tanto adoro e onde morei por tantos anos. Foi a cidade em que vivi por mais tempo até hoje. Nem mesmo em Porto Alegre, minha cidade natal, eu morei por tanto tempo. E foi uma experiência curiosa: se por um lado eu fiquei extremamente feliz de rever certos lugares preferidos, como o museu Fitzwilliam, o jardim botânico e algumas ruas e parques que eu gosto tanto, por outro lado... acabei olhando a cidade de outra maneira. Nunca imaginei que isso fosse acontecer e eu voltaria a ver a cidade como eu a vi pela primeira vez: sem purpurina. Logo quando me mudei para lá (nos anos 90!) eu reparei inicialmente no lado mais feioso. Só depois, quando minha situação de trabalho mudou e tive mais tempo livre para curtir, é que me encantei com a oferta cultural e passei a relevar a feiura. Mas agora percebi o lado feio outra vez. E por um lado foi interessante ver a cidade tal como é, além da oferta cultural, da beleza arquitetônica, do multiculturalismo que eu tanto gosto. Me senti tão aliviada ao perceber isso, foi como me sentir livre de um feitiço, amém.
 
Ao mesmo tempo fiquei com vontade de visitar Cambridge com certa regularidade. Não deixar tanto tempo passar: voltar pelo menos uma vez por ano, assim como faço com Porto Alegre. Bater ponto nos lugares favoritos e rever determinadas pessoas. Não apenas as mais chegadas; gostei também de rever os conhecidos de vista, como o proprietário do mercadinho asiático. Ele ficou tão feliz quando eu mencionei que tinha me mudado para longe e sentia muita falta da sua loja. Por anos e anos eu fiz as compras no seu mercadinho (adoro cozinhar comida asiática). Conversamos bastante; ele estava mesmo saindo de férias no dia seguinte - 4 dias em Portugal. Pena que nem lembrei de tirar uma foto com essa pessoa que também faz parte da minha história. 

Outro momento muito legal da viagem foi pedalar de Cambridge até Ely. Peguei uma bicicleta emprestada e fui. Uma pedalada que já fiz tantas vezes, em torno de 40km pela imensidão das planícies. E as planícies não decepcionaram, continuam lindas. O grande obstáculo é sempre o vento, que nesse dia estava cruel. Mas tive sorte e não choveu, pelo contrário - estava um dia ensolarado. 

Outro lugar que nunca decepciona é o jardim botânico da universidade: continua encantador. Inclusive tive sorte de ver floridas as campainhas de inverno que eu ajudei a plantar, anos atrás. Mas o que me surpreendeu foi que uma parte boa da viagem foi VOLTAR PARA CASA! Houve momentos nos últimos anos em que duvidei se algum dia iria me sentir assim em relação a esta casa/este lugar. Ufa, até que enfim. Sinto que o coração vai entrando nos eixos. E que agora estou em melhores condições de lidar com as próximas mudanças pela frente.  

O balançar da carroça sempre ajeita as melancias... Vida que segue, me sentindo bem mais leve agora.