Muitas
vezes esqueço das minhas qualidades, mas outro dia tive
um lembrete de uma delas: "saber ouvir". Vou comentar duas conversas
que tive, uma com minha vizinha, outra com um amigo do meu marido. As duas
conversas começaram da mesma maneira: eu contando que meu marido e eu estávamos
comemorando 21 anos de casados.
Conversa
com a vizinha:
Eu: Estou
muito feliz, outro dia meu marido e eu comemoramos 21 anos de casados.
Vizinha:
Em 2018 eu e meu marido vamos fazer 25 anos de casados!
Eu: 25
anos? Que legal, meus parabéns!
Vizinha:
Pois é, nos conhecemos em 1989 e casamos um pouco depois. Nos conhecemos
através de um casal de amigos... (e contou toda a história de como se
conheceram, que aliás ela já tinha me contado uns meses atrás, mas tudo bem).
A
conversa com o amigo do meu marido não foi muito diferente:
Eu: Estou
muito feliz, acabamos de comemorar 21 anos de casados.
Amigo:
Nós já estamos casados há 42 anos! No último aniversário de casamento, viajamos
para o destino X.
Eu: Uau!
E gostaram do destino X?
E o
sujeito ficou um tempão me contando detalhes daquela viagem ao destino X.
Pois é,
nem a vizinha nem o amigo do meu marido foram capazes de me dar os parabéns. Não perguntaram se fizemos algo especial para comemorar, não perguntaram nada. Pelo contrário: tomaram o foco da conversa para si, o mais rápido que conseguiram. Diria que é falta de sensibilidade, talvez possa ser considerado uma certa falta de educação...mas por outro lado admito que é normal, no sentido de que acontece com muita frequência. Se
prestarmos atenção são raras as pessoas que tem interesse no que a gente tem
pra contar, o que elas querem mesmo é contar as coisas delas.
É fácil
manter uma conversa com esse tipo de pessoa,
basta fazer perguntas: E porque
escolheram o destino X para essa data tão especial? Etc etc. É fácil, mas
infelizmente não traz muita satisfação. Na verdade, para mim é uma grande
chatice entrar nesse papel de platéia. Por outro lado, tenho como mudar as pessoas? Obviamente que não. Acho importante manter um relacionamento cordial com
os vizinhos, com os colegas, com os amigos do marido. Ao invés de me frustrar com a vizinha, querendo que ela fosse diferente, já aceitei que ao conversar com ela o diálogo vai sempre descambar para um monólogo.
Mas
enfim, por um lado foi bom ter um
lembrete dessa maneira de agir e mais uma vez me dar conta que "ufa, ao menos esta falha aí eu
não tenho". Sei ouvir. Sei me calar. Sei dar importância para o que os
outros tem para me dizer. Não passo correndo por cima do que as pessoas estão
me dizendo, num esforço de manter o foco da conversa em mim.
Se alguma pessoa me conta que está planejando passar um final de semana em
Cidreira, eu não vejo sentido em saltar com a primeira coisa que me vem na cabeça, tipo "nossa quantos anos eu não vou a Cidreira", nem fazer comentários com juízo de valor "Cidreira?! Mas pra quê?! Tranquilo mesmo é Mostardas!". Ao invés disso eu me interesso pelo final de semana dela, escuto o que ela tem pra me dizer, incentivo com perguntas para explorar mais o assunto, pergunto se já conhece Cidreira, se já sabe onde vai se hospedar etc. Depois de ouvir tudo o que ela tem pra me dizer, até posso comentar que faz anos que não vou a Cidreira... mas isso fica para depois, não preciso cortar a conversa dela com o que EU teria pra falar em relação a Cidreira.
Talvez a incapacidade de ouvir seja também uma incapacidade de esperar, uma incapacidade de organizar as idéias? Nunca tinha pensado no assunto dessa maneira. Mas tem um aspecto competitivo também. Algumas pessoas encaram conversas como se estivessem numa eterna competição: elas sempre foram para um lugar mais legal, tiveram uma experiência mais interessante, viram o filme mais descolado... ou estão casadas há mais tempo. Voltando ao exemplo de Cidreira: eu não preciso comentar dos meus planos mais refinados do que um simples pulo até Cidreira. Ou se alguém me diz que está tendo um dia ruim, eu não preciso responder com: Vc está tendo um dia ruim? Vc não faz idéia de como o meu dia está péssimo! Deixo a pessoa desabafar sobre o dia dela, com toda a calma do mundo. Se me perguntar ou se for apropriado eu posso comentar do meu dia depois. Ou não.
Talvez a incapacidade de ouvir seja também uma incapacidade de esperar, uma incapacidade de organizar as idéias? Nunca tinha pensado no assunto dessa maneira. Mas tem um aspecto competitivo também. Algumas pessoas encaram conversas como se estivessem numa eterna competição: elas sempre foram para um lugar mais legal, tiveram uma experiência mais interessante, viram o filme mais descolado... ou estão casadas há mais tempo. Voltando ao exemplo de Cidreira: eu não preciso comentar dos meus planos mais refinados do que um simples pulo até Cidreira. Ou se alguém me diz que está tendo um dia ruim, eu não preciso responder com: Vc está tendo um dia ruim? Vc não faz idéia de como o meu dia está péssimo! Deixo a pessoa desabafar sobre o dia dela, com toda a calma do mundo. Se me perguntar ou se for apropriado eu posso comentar do meu dia depois. Ou não.
Só agora no fim do texto fui conferir no dicionário a diferença entre ouvir e escutar: escutar é ouvir com atenção. Ufa, ao menos isso eu sei fazer :)
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